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domingo, 12 de abril de 2009

Sete de Janeiro

A Sara chorava
porque o mundo não parava
A Sara já não chora
porque as lágrimas se foram embora

E o mundo avançou
com pressa para sair
Mas ela não voou
e deixou-se cair.

E por ali andava ela
sem que ninguém desse por ela

E também ela morreu
porque não percebeu
que para o mundo parar,
ela tinha de avançar.

domingo, 2 de março de 2008

Sonhar Acordada

Muito gosto eu de sonhar acordada,
E olhando para um sítio onde não há nada,
Ver-te a ouvir tudo o que eu deveria dizer.

Olhando para esse sítio onde não há nada,
Idealizo a próxima vez,
Em que digo o que já devia estar dito,
Em que tudo termina de vez.

E então, dessa vez
Dizes-me o que queria ouvir-te dizer,
Ou pelo menos uma parte desse querer,
Porque talvez isso chegue, talvez.

E eu choro a dizer o que preferia que não fosse verdade mas não consigo evitar,
E então dizes-me que o resto não irá acabar.
E isso faz-me chorar, faz-me sorrir,
Porque ao menos isso também é assim para mim.

Ou então ao olhar para esse sítio onde não há nada,
Em que digo tudo o que já devia estar dito,
Dizes-me que não é só assim para mim e que resultará,
Mas esse sonho é muito mais longínquo,
Muito menos pensado,
Muito mais desfocado.

Ou até mesmo vejo o pesadelo
Em que não chego a dizer nada,
Porque a próxima vez é desmarcada.

E neste, tudo simplesmente acaba,
Dizendo coisas que até precisavam ser ditas,
Mas no fundo não dizendo nada.

E o que não acaba, enfraquece.

E assim fico a sonhar acordada,
Até que olho para esse sítio onde não há nada
E vejo um simples nada onde vejo tudo,
E aí percebo o quão profundo sonho acordada.

(by thegirlnextdoor)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

TOMAMOS A VILA DEPOIS DE UM INTENSO BOMBARDEAMENTO - Fernando Pessoa

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe –
Dos que boiam nas banheiras –
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro,
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?

Fernando Pessoa